Por que falar sobre assédio é importante é o que isso tem a ver com #EmployerBranding?

Pesquisa diz que 53% das mulheres sofreram assédio sexual no trabalho e indica que mulheres são um alvo mais comum para chefes e diretores, com 30% de casos contra 12% dos homens.* Isso é só o topo do iceberg, ou seja, as histórias que são denunciadas, que são levadas à diante pelas vítimas.

Há inúmeras histórias de mulheres que sofrem o assédio e não denunciam por medo das consequências.

Eu já sofri assédio e todas as mulheres que eu conheço já sofreram assédio (sexual ou não) de alguma maneira, seja na vida pessoal, seja na vida profissional.

A questão é que, na vida profissional, na entrevista ou no ambiente de trabalho, deve haver deve responsabilidade da empresa para incentivar as denúncias, para criar canais imparciais que acolham essas histórias, para garantir que não haja retaliação e para avaliar com seriedade cada um dos casos, além de, obviamente, punir aqueles que praticaram o assédio.

Sim, nós precisamos falar sobre assédio porque ele existe, é real e está por toda parte.

Eu tenho várias histórias de assédio para contar, mas escolhi uma que me foi mais marcante. Não é fácil falar sobre isso, mas é necessário. Por anos eu guardei essas memórias sem tocar no assunto e foi difícil descobrir que isso não deveria ser uma vergonha para mim, mas sim uma história a ser partilhada para que homens vejam que o assédio existe e que mulheres se sintam que é necessário denunciar.

Quando tinha meus 20 e poucos anos eu trabalhava em uma empresa na qual existia um gerente conhecido por todas as mulheres devido ao seu (mal) comportamento. Era aquele tipo que encostava em você propositalmente com segundas intenções, achava que era ok dar elogios desnecessários e totalmente fora do contexto sobre as mulheres e suas roupas, que fazia questão de ter contato físico com abraços e beijos com todas as mulheres em todas as possíveis situações. Algumas riam sem graça, outras fugiam dele a todo custo. Era sempre constrangedor e desagradável para a maioria de nós, mulheres, o encontrar em qualquer ambiente de trabalho.

Ele era gerente e bem visto pela diretoria. Naquela época pouco se ouvia falar sobre “assédio” e as mulheres se referiam a ele como “nojento”. Ele era conversa de corredores, com as mulheres se dividindo entre aquelas que riam (para não chorar) do papel horrível que ele representava ou aquelas que fugiam dele como o diabo da cruz.

Eu era nova no cargo de coordenadora na empresa, mas tinha contato com vários gerentes, inclusive esse figurão. Era “normal” precisar ter contato profissional com ele, amargar as piadinhas machistas sobre mulheres ou suportar aquilo que ele considerava “elogio” para nós.

O fato é que nenhuma mulher se sentia confortável ao lado dele, mas não havia um canal de denúncias, era uma empresa razoavelmente pequena, todos se conheciam, o cara ocupava uma boa posição, tinha o respeito profissional dos seus pares e dos superiores. Não havia denúncias, porque as mulheres achavam horrível as situações com ele, mas ao mesmo tempo, era banalizado. Ele era assim e ok, a gente que aguentasse. Não se falava em assédio abertamente, era assunto velado, nem se mencionava que assédio é crime sim.

Um dia, em uma das reuniões semanais que eu tinha com esse gerente na sala dele, ao final da reunião ele fechou a porta. Estávamos sozinhos e ele me disse algumas palavras desconexas das quais não me lembro, segurou firme o meu rosto e me beijou à força. Eu segurava um caderno e canetas que caíram no chão. Eu o empurrei com toda força que eu tinha, mesmo ele sendo o dobro do meu tamanho. Peguei minhas coisas, abri a porta, sai da sala e corri para o banheiro. Chorei e me escondi de vergonha, de raiva.

Ao sair do banheiro ele passou por mim no corredor, sorriu, como se nada tivesse acontecido. Eu voltei para minha sala, sem ação. Liguei no ramal de uma grande amiga que trabalhava comigo. Ela foi até minha sala, fechamos a porta e eu contei o que havia conhecido. Ela sabia que era verdade, ela sabia quem ele era. Minha amiga me incentivou a denunciá-lo para a minha gerente na época. Ela me convenceu de que faria sentido, que minha gerente também era mulher, gostava de mim, entenderia a situação e me daria apoio.

Contei para a minha gerente direta. O que aconteceu? Ela duvidou a princípio. Eu disse que qualquer mulher que ela parasse no corredor daquela empresa e que tivesse um cargo mais baixo do que o dele poderia confirmar diversas situações de assédio. Depois de muito conversar, contar a cena inúmeras vezes, ela entendeu que era verdade, mas botou panos quentes. Me disse que eu podia ter confundido as coisas, que “provavelmente foi um beijo na bochecha que ele errou sem querer”, que eu “provavelmente virei o rosto na hora que ele foi se despedir e o beijo aconteceu sem querer”, que eu “entendi mal a situação”, que ele era “um gerente respeitado, com esposa”. Eu sabia exatamente o que tinha acontecido naquela sala com aquele homem. E eu sabia exatamente que aquela denúncia não daria em nada. E não deu.

Eu saí da sala da minha gerente mais humilhada do que quando entrei. Minha vontade era ter pedido demissão naquele momento, mas eu tinha contas a pagar. O assunto morreu ali, como se nunca tivesse acontecido para ninguém, exceto para mim.

Eu deixei de oferecer meu melhor potencial de trabalho porque não queria participar de projetos que envolvessem qualquer tipo de contato com aquele gerente, eu fugia das reuniões com ele, eu evitava o olhar dele olhando para baixo e várias vezes me retirei de ambientes que pudessem me deixar de qualquer maneira sozinha com ele.

Eu demorei anos para falar com mais alguém, além daquela minha amiga, sobre isso. Demorei anos para entender que foi assédio sim, que eu não era louca, que não havia confundido nada e que eu deveria ter levado adiante, porque aquela cena me assombra em cada detalhe até hoje, mas não tive orientação, nem apoio e nem maturidade na época.

O que isso tem a ver com Employer Branding? Tudo! #NãoSejaEssaEmpresa que permite o assédio! Não se cria um bom ambiente de trabalho onde há assédio e, principalmente, onde há impunidade para o assédio. Ninguém recomenda uma marca empregadora que permite que seus funcionários passem por situações de assédio sem tomar providências.

Troquei de empresa assim que consegui outra oportunidade de emprego. Não tive a menor dúvida! Porque eu deixei de amar onde eu estava, o que eu fazia. Deixei de admirar as pessoas com as quais eu convivia e deixei de ter lideranças inspiradoras, porque quando eu mais precisei de apoio eu não encontrei.

Depois desse caso, eu sempre procurei referência de empresas para trabalhar que tivessem canais de denúncia para assédios e sempre busquei referências de casos anteriores de assédio nas empresas que me ofereceram oportunidades de trabalho. Essas referências me ajudaram a dizer “sim” ou “não” para muitas empresas ao longo da vida. E as pessoas ainda acham que assédio e marca empregadora não tem nenhuma relação…

*Fonte: https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2017/10/pesquisa-diz-que-53-das-mulheres-sofreram-assedio-sexual-no-trabalho.html

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